sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A VITÓRIA DE UMA GREVE EXTEMPORÂNEA, por Silvia Rosa Silva Zanolla/Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás/FE/UFG.



A VITÓRIA DE UMA GREVE EXTEMPORÂNEA

Pode-se matar um homem, mas não seus ideais. A menos que seu espírito seja destruído antes” (Chris Carter)

Os professores universitários possuem razões de sobra para se orgulharem do Movimento grevista criado em âmbito local e nacional, tanto no que diz respeito aos princípios adotados, quanto à metodologia de trabalho. O Movimento emergiu das bases, cujos valores privilegiaram a independência político-partidária, acadêmica e de ideias. Em suas atividades visou claramente perspectivas éticas que priorizassem a qualificação do debate político. Entretanto, não foi um percurso tranquilo. Como não poderia deixar de ser, da fertilidade do ambiente acadêmico emergem divergências, metodologias antagônicas e concepções diversas acerca da vida institucional e política, aportadas por áreas diversas do conhecimento.
Embora tardia, foi inevitável que a greve brotasse aos poucos, conforme a conjuntura e suas necessidades exigiam. Alguns, convencidos de que não havia lugar para uma paralisação, defendiam que a greve poderia abortar negociações que, na realidade, se apresentavam abstratas e tendenciosas;
instrumentos dos setores do poder que negligenciam a importância da educação para o país. Para impedir a eclosão da greve, seus opositores lançaram mão de métodos espúrios a um embate que deveria ser ético, coerente e transparente.
Ao vislumbrarem os êxitos da greve, como em uma ação orquestrada, seus opositores tentam convencer professores, alunos e a comunidade em geral de que os recursos do governo são escassos; que, a bem da política nacional, se deveria compreender o sacrifício da categoria como poder de conversão da educação em moeda clássica do desenvolvimento do país; entretanto, contraditoriamente, investimentos governamentais em aparelhos repressivos constituem regra à recessão econômica.
Inúmeras tentativas de desestabilização do Movimento são arquitetadas pelo governo ancorado pelos meios de comunicação. Nesse processo, destaca-se uma organicidade de diferentes instâncias (sindicatos pelegos, federações, reitorias, partidos) postulando uma política única, totalitária, subserviente; a prova do conformismo enraizado pela intolerância à critica que assola a cultura contemporânea. Emergem dessas instâncias discursos clamando o retorno às atividades pela excelência do produtivismo meritocrático, do notório saber aliados à visão administrativa de resultados possíveis e reguladores da gestão educacional, de métodos e ações que, ao contrário do que defendem, diluem a visão ampla de educação, instauram em pares a divisão e a competição, práticas imediatistas e tecnicistas no âmbito da docência. Em meio às estratégias de desmoralização do Movimento, nenhuma estratégia é tão enfatizada quanto a desqualificação daqueles que ousaram enfrentar Leviatã; julgados como partidaristas extremistas, o rótulo de “andinos radicais” de “espírito juvenil” nunca foi tão empregado pelos adeptos do poder, que agem como se as ações políticas não fossem fruto da produção do conhecimento, do pensamento acadêmico e intelectual.
Na tentativa de desqualificação do Movimento, subvertem conceitos como representatividade, direito, legitimidade, democracia e ética. Não bastassem ações que incluem votações sem discussões, fuga de debates e manobras nas negociações, os inimigos da greve justificam sua conduta alegando que a participação em assembleias e reuniões é contraproducente, irrelevante “perda de tempo”. Nesse contexto, fatos são aventados e manipulados de acordo com interesses dos que detém a máquina institucional. Normas, leis, estatutos, regimentos são interpretados em sentido invertido; emblema da indigência autocrática. Acordos escusos e negociações à revelia dos interesses da categoria são firmados entre partes que se delegam representantes, se utilizando de enquetes tendenciosas, resultados preliminares duvidosos, promessas de grupos de trabalho conciliados sem garantias. O limite da greve é sucessivamente questionado; ao tempo em que deliberações legítimas são negligenciadas incompreensivelmente.
Acusam a greve de ser extemporânea, pois, de fato ela o é. Longe de ser prazerosa, esta não emerge, a priori, de maneira determinada, manipulada, mas, de situações-limite, ações individuais e coletivas que confluem em construção, que ousam rasgar o véu ideológico do poder dominante. De maneira recorrente, seus objetivos são contraditórios, arriscados e às vezes perigosos (o caso dos 34 trabalhadores em greve, mortos na África do Sul dia 16 de agosto deste ano reflete esses riscos).
Em que pese o caráter arriscado da greve seu valor pedagógico compõe a razão de ser do Movimento e extrapola o trabalho paralisado pelas reivindicações acerca de temas como condição orçamentária, teto e reposição salarial. O mérito desta greve está em possibilitar amplas lições oferecidas por um processo formativo e democrático não direcionado apenas ao fim último de angariar frutos financeiros. Se assim o for, escrutinar o ganho salarial como única possibilidade em meio à precarização do ensino sem que se conceba um sentido mais humano, justo e emancipatório para a academia universitária torna a análise limitada.
A greve docente de 2012 é forte e independente de resultados imediatos é exitosa. Evidentemente, não do ponto de vista daqueles que tentam impedi-la por motivos meramente financeiros, político-partidários e pessoais, mas sim, pelo patrimônio formativo que se consolida para sua estruturação, sobretudo pelo acúmulo de reflexões e discussões e pelo respeito às diferentes formas de pensar por ela instaurado. Representa o prenúncio de uma formação crítica política que há tempos se fazia ausente nas atividades sindicais, a possibilidade de resgatar a identidade usurpada por aqueles que, de maneira recorrente, insistem em retirar do direito constitucional, a capacidade de cada sujeito falar por si.
Silvia Rosa Silva Zanolla/Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Goiás/FE/UFG.


4 comentários:

  1. Temos que continuar a luta, que hora termina para começar uma GUERRA.
    NÃO VOU VOLTAR COM O RABINHO ENTRE AS PERNAS, porquê? NÃO SEREI RESILIENTE E TUTELADO POR CORRUPTOS QUE TANTO SANGRAM O NOSSO BRASIL E A ESTE GOVERNO QUE CONTINUA, NÃO POR MUITO TEMPO, NA ADMINISTRAÇÃO DE NOSSO PAÍS.
    Não aceito cabrestos e nem freio, a DEMOCRACIA está em choque. Pelo meu BRASIL, minha família, pela democracia, LIBERDADE e cidadania, CONTINUAREI EM GREVE, POIS ACREDITO QUE ESTOU TRABALHANDO PELA PAZ. NÃO AO PT nas próximas eleições. FORA PT.

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  2. Respostas
    1. O comentário foi direcionado ao Gerson Homem e não ao artigo.

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    2. Wlsgyn,

      "Facista" é quem diz não ao PT?

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